Dois Mundos a Beira-Mar: Conflitos de Realidades
A poucos quilômetros de distância, o mesmo oceano banha duas realidades opostas, separadas não apenas pela geografia, mas pela forma como o homem habita a areia.
NA PRAIA QUILOMBOLA,
a paisagem é uma extensão da história. As casas, muitas vezes construídas com materiais locais ou alvenaria simples, não tentam dominar o horizonte; elas se aninham entre as amendoeiras e o jundu. Ali, o tempo é ditado pela maré e pelo ciclo da pesca.
Varal de redes secando ao sol revelam uma relação de subsistência e respeito. O silêncio matinal é preenchido pelas crianças a caminho da escola e pelos passos de quem conhece cada grão de areia pelo nome.
A PRAIA DA CAÇANDOCA, em Ubatuba-SP,
é um Território de Resistência que abriga o primeiro Quilombo do Brasil a ter suas terras reconhecidas em área de Marinha.
A comunidade local é formada por descendentes de africanos escravizados que trabalhavam na antiga Fazenda Caçandoca, que após falir foi abandonada pelos antigos proprietários. Porém, as famílias remanescentes africanas permaneceram no local, mantendo vivas suas tradições, o manejo da terra e a pesca artesanal, garantindo que a cultura quilombola continue pulsando entre o mar e a serra.
O CENÁRIO NATURAL
O acesso à praia é feito por uma estrada de terra que serpenteia a montanha, revelando um cenário de águas calmas, areia clara e muita sombra de árvores nativas. Por ser uma área de preservação e patrimônio cultural, a orla conserva um aspecto selvagem e tranquilo, ideal para quem busca fugir do turismo de massa.
Nas proximidades, trilhas levam a outras praias desertas, como a Praia do Pulso e a Praia da Caçandoquinha, além de caminhos que revelam ruínas históricas da época colonial, reforçando a sensação de um mergulho no tempo.
O MURO DE VIDRO: QUANDO A PORTARIA
SE TORNA FRONTEIRA
Já na praia de veranismo, a Praia do Pulso, a natureza foi domesticada para servir ao privilégio. Onde antes havia restinga, hoje erguem-se muros altos e portaria que restringi o acesso à praia – aonde seria um bem de uso comum do povo – preservando as casas de luxo com fachadas de vidro que refletem o azul do mar, devolvendo uma imagem de exclusividade. Separados por uma faixa de areia e com seus jardins milimetricamente podados que parecem transbordar seus proprietários para o oceano. Aqui, o movimento é sazonal: tendo o silêncio interrompido pelos ruídos de jet-skis e lanchas durante as férias e finais de semana, mas o vazio predomina no resto do ano. É um espaço de consumo e lazer, onde o cenário serve de moldura para o status, e a areia é apenas o quintal de uma fortaleza particular.
CAÇANDOCA X PULSO
Enquanto uma praia é guardada por seguranças privados, inclusive posicionados na saída da praia da Caçandoca, exibindo os frutos de um capital que nela apenas passa – a outra praia preserva as raízes de um povo que nela resiste.
TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA
Visitar a Caçandoca é também uma oportunidade de praticar o turismo consciente. A comunidade oferece experiências que vão além do banho de mar, como:
• Artesanato: Peças que carregam a identidade e a história do quilombo.
• Relatos Históricos: A chance de ouvir dos próprios moradores a história de resistência de seus antepassados.
CONHEÇA A PRAIA DA CAÇANDOCA EM UBATUBA/SP
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